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Selo CAROLiNA realiza Ateliê de Escritoras para escritoras negras inéditas

No dia 15 de junho de 2018, o selo CAROLiNA, do Editorial Linha a Linha, terminou a arrecadação de R$4.820 com financiamento coletivo. O objetivo da campanha era, no processo de estreia do selo especial da editora pra escritoras negras inéditas, contribuir com a formação de escritoras e lapidação de originais que não foram selecionados para publicação imediata. A proposta de um Ateliê de Escritoras começou quando, em 2017, a editora abriu uma chamada online para receber originais de escritoras negras inéditas – e recebeu muito mais originais do que havia previsto. Considerando que a ausência de escritoras negras do mercado editorial brasileiro é parte de um processo longo e antigo de racismo estrutural, a Linha a Linha procurou soluções que não descartassem a possibilidade de que mais autoras fossem publicadas (mesmo que não necessariamente no selo CAROLiNA). Para isso, arrecadou fundos e com o apoio de 30 pessoas conseguiu financiar o Ateliê de Escritoras.

Quem são as escritoras do Ateliê e por que escrevem?

O Ateliê foi organizado e realizado como um programa de tutoria pela já experiente escritora, poeta e editora negra Lubi Prates. O primeiro encontro aconteceu no dia 22 de Julho, com as escritoras convidadas Fernanda de Paula, Noemi Macedo e Paloma Saints. No encontro, foi resgatada com cada escritora sua resposta para a pergunta: “Por que escrever?”.

Paloma Saints contou que  “Atualmente juntando toda esta trajetória, o como eu escrevo os contos e romances são a partir de criações de situações inusitadas que gostaria que fossem reais ou por meio de aspectos de minha vida e personalidade que gostaria de representar. Acredito que dando voz e vida a esses seres eu dou a minha voz também. Eu escrevo com requinte de detalhes do que não é físico. Tenho a necessidade de personificar sentimentos e sensações. Para que os insensíveis entendam”.

“Eu escrevia escondida, no quarto ou na praça”, compartilhou Fernanda de Paulo. “Sempre digo que meu real trabalho é escrever, que sou escritora, mas nunca havia atentado aos detalhes do meu trabalho até ler o texto de Natalia Ginzburg. Um pouco mais cônscia, então, do meu trabalho, explicito-o: geralmente fico fissurada em uma situação. A situação pode ser verdadeira ou não, pode ser algo que vivi ou que vi, pode vir de um arrebatamento por algo que ouvi, ou por uma cor, um beijo, a luz do sol de outono. A partir da situação vem o desejo de desenvolver o conto, o mundo, as tessituras do mundo entorno da situação, carne do conto”.

Já Noemi Macedo colocou que “Todo o livro que li e toda a canção e toda a manifestação bonita do universo e todo tipo de relacionamento sensível me constrói e me desconstrói e junto minha escrita, são indissociáveis para mim. É uma coisa meio orgânica. O soldado queimado e só ou o menino e a improbabilidade de conseguir a estrela, mas ainda assim tentar pegá-la. Eu tenho pra mim que o meu texto é o resultado de minha alegria e do meu fracasso e do fracasso e alegria do mundo, é o resultado desse encontro de mim com o mundo”.

Novos livros em produção

No segundo encontro, foram conversadas as expectativas para o livro de cada uma, que o selo CAROLiNA encoraja as demais editoras a também considerarem para seus catálogos. São três livros de contos em que as autoras propõem sequências narrativas e/ou reflexivas sobre diversos temas e cenários, cada uma com seu estilo sintetizando a variedade nas trajetórias dessas escritoras enquanto escritoras, enquanto mulheres, enquanto mulheres negras.

Fernanda de Paula resume o seu Incautas como “(…) uma imprudência cotidiana, uma imprudência calada nos gestos corriqueiros, nas afetações, nos amargores, nas certezas ou nos medos que estão encorpados dentro de nós”. Noemi Macedo descreve Contei como “uma tentativa de rapto do cenário brasileiro”. Segundo a autora, o título vem em primeira pessoa pois “o rapto é feito de minha janela”. Por fim, Paloma Saints reflete que “Contodianos representa toda a arte, poesia e literariedade que a rotina pode proporcionar”.

Nos demais encontros do Ateliê foram discutidos cada conto de cada um dos livros. “Não discutimos apenas as estruturas de desenvolvimento de conto e alguns erros gramaticais comuns mas, principalmente, se o conto representava o que cada autora é e aquilo que gostaria de dizer. Além disso, também conversamos sobre o reforço de estereótipos presente nos contos, o que gerou muita reflexão, já que somos negras”, conta a coordenadora Lubi Prates. Ao final, foram discutidas as diversas formas de autopublicação e publicação: blogs, sites, redes sociais, zines, plaquetes, livros e concursos. “Chegamos à conclusão de que publicar, independente do meio, também é lutar por igualdade de raça e gênero”, disse.

“Agora posso me considerar escritora”

Ao final, as escritoras participantes avaliaram os efeitos do processo do Ateliê em sua trajetória. “Trabalhar em conjunto denuncia previamente a grandeza da construção que virá”, disse Noemi. “Foi enorme pra mim descobrir tanta coisa daqui, de minha ‘meninice’, e essa ‘tanta coisa’ vai desde as mil e uma possibilidades de existir escritora até a vírgula mal posta”.

Fernanda, que já havia escrito para a internet em blogs e já havia publicado alguns de seus textos em coletâneas, afirmou que “pensar (sinônimo de viver) meus escritos junto com outra pessoa, notadamente com Lubi Prates, foi diferente: me senti, de repente, pisando em chão instável, um pouco desnorteada, tentando (tateando) como aprender a me equilibrar. (…) Saio mais forte desse processo.”

Chegando a partir de uma trajetória diferente da de Fernanda, Paloma Saints conta que foi a primeira vez que teve um olhar crítico para os próprios textos. “Pela primeira vez na minha vida, passei pelo processo de revisão/correção de uma obra minha. Confesso que tive momentos fortes; de odiar algumas coisas que tinha escrito e estranhar outras, ou enxergar pontos bons que precisavam ser ressaltados. Agora posso realmente me considerar escritora”.

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Editora independente lança campanha para fomentar a produção de escritoras negras no Brasil!

No dia 1º de maio, a Linha a Linha, editora independente com sede em São Paulo/SP, lançou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) para fomentar a produção de escritoras negras no Brasil (clique aqui para saber mais).

Em 2017, a editora recém-fundada abriu, com seu primeiro selo – CAROLiNA, uma chamada para envio de originais de prosa literária de autoras negras inéditas residentes no estado de São Paulo. Com o alto volume de originais recebidos em pouco tempo, a equipe editorial decidiu ir além da mera seleção de uma obra para publicação no ano de 2018: caso a meta total do financiamento coletivo seja arrecadada, mais três escritoras serão convidadas a participar de um Ateliê de Escritoras.

O Ateliê é um programa de consultoria e tutoria para que três desses originais enviados – e julgados pelo comitê editorial ainda não suficientemente desenvolvidos para publicação – sejam lapidados por suas autoras sob orientação da já experiente escritora Lubi Prates. A escritora tem larga experiência no mercado editorial e em oficinas de apoio à trajetória literária de escritoras negras, participando de maneira ativa na formação de um novo corpo de escritoras negras no Brasil. Uma vez que o Ateliê acontece por meio de ferramentas online, poderão ser selecionadas escritoras de diferentes partes do estado, dentre aquelas que enviaram originais na chamada de 2017.

A Linha a Linha propõe o projeto como uma maneira de enfrentar a responsabilidade das editoras na formação de um corpo de autores e obras com mais diversidade no mercado brasileiro. Diversos estudos vêm apontando como o espaço literário brasileiro foi historicamente hostil às mulheres negras – mesmo havendo bravas exceções como Carolina de Jesus, que dá nome ao primeiro selo da editora. Segundo a editora, “normalmente, no processo editorial, as editoras têm uma posição de poder em relação às autoras – afinal, elas é que decidem se o trabalho vai ser publicado, como vai circular, etc. A prática de muitas editoras é baseada numa relação bastante unilateral. É comum que as autoras sequer recebam uma resposta após enviarem originais, sobretudo quando a editora não pode ou não deseja publicá-los. Nós consideramos que esse tipo de atitude é politicamente irresponsável, num país em que há tanta desigualdade educacional e de acesso a bens culturais.”

No sentido de aproximar as pessoas do processo de produção do livro (que é um “objeto político”, segundo a descrição da página oficial de Facebook da editora), as recompensas oferecidas aos apoiadores e apoiadoras do projeto permitem a participação em diferentes etapas dessa jornada. Além da pré-venda (com desconto) do futuro livro publicado, quem financiar o projeto poderá também participar de decisões ao longo do processo, acompanhar o desenvolvimento do Ateliê de Escritoras ou mesmo obter tutoria ou consultoria para a própria carreira no mercado editorial.

Mais informações podem ser obtidas na página da editora no Facebook (https://www.facebook.com/editoralinha), em seu site (http://editoralinha.com.br) e, sobretudo, na página do projeto para financiamento coletivo na plataforma Catarse (https://www.catarse.me/escritoras-negras)